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Criminalização da Prática de “STALKEAR”


(Foto Freepik: master1305)


No último dia 31 de março foi sancionada a Lei nº 14.132/2021, acrescentando o artigo 147-A ao Código Penal (Dec-Lei nº 2.848/1940), criminalizando, assim, o crime de perseguição, também conhecido pelo termo em inglês Stalking.

Eis o conteúdo do novo regramento:


Art. 147-A. Perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade.

Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.

§ 1º A pena é aumentada de metade se o crime é cometido:

I - contra criança, adolescente ou idoso;

II - contra mulher por razões da condição de sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código;

III - mediante concurso de 2 (duas) ou mais pessoas ou com o emprego de arma.

§ 2º As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das correspondentes à violência.

§ 3º Somente se procede mediante representação.


Vale lembrar que a perturbação da tranquilidade já era tipificada como contravenção penal do artigo 65 do Dec. Lei nº 3.688/1941, agora revogado posto que a previsão legal não dava resposta jurídica suficiente aos novos nuances que a perseguição pessoal ganhou com a popularização da internet.


Com o advento das redes sociais, e uma maior exposição da privacidade de seus usuários, tornou-se comum que pessoas mal-intencionadas passassem a acessar de forma compulsiva o perfil de suas vítimas, realizando investigações e divagações acerca da rotina do “investigado”, extraindo dali conclusões distorcidas.


Isso porque numa sociedade hiper conectada na qual perfis do Instagram, Snapchat, Twitter, Facebook, dentre tantas outras redes sociais, são o ponto de contato do indivíduo com o mundo. As visualizações e curtidas são o elo entre o observado e o observador e geralmente são bem recepcionadas quando provém de amigos, colegas, conhecidos ou pretensos parceiros afetivos.


Entretanto, quando são realizados por um amor não correspondido, um relacionamento findado, ou algum desafeto, certamente causam algum grau de desconforto e revolta.


A criminalização da conduta demonstra que o legislador pátrio está atendo à evolução das relações sociais, é o que se extrai do trecho do Projeto de Lei nº 1369/2019, de Autoria da Senadora Leila Leila Barros:


A presente iniciativa corresponde a um apelo da sociedade e a uma necessária evolução no Direito Penal brasileiro frente à alteração das relações sociais promovidas pelo aumento de casos, que antes poderiam ser enquadrados como constrangimento ilegal, mas que ganham contornos mais sérios com o advento das redes sociais e com os desdobramentos das ações de assédio/perseguições.


Tal comportamento já vem sendo estudado há algum tempo, definido pelo termo em inglês orbiting (orbitar), que consiste basicamente no padrão de “comportamento inerente ao meio e a uma época em que as pessoas podem estar hiperconectadas umas com as outras sem ter de abrir a boca. Os métodos distantes de observação digital – curtidas, visualizações etc. – são o elo entre o observado e o observador."


Mario Luiz Ramidoff e Cesare Triberi, na obra “Stalking: atos persecutórios, obsessivos ou insidiosos” resgataram a origem do termo abrasileirado “stalkear”:


“Está provavelmente ligada a uma terminologia em tema de caça, que remonta ao renascimento inglês e foi transportada das histórias de caça aos animas à caça, agora, do próprio ser humano (to stalk – perseguir um animal). (...) provavelmente, a primeira referência a um trágico caso de stalking, deve-se a um serial killer norte-americano que, em 1975, referindo-se ao próprio comportamento, declarou como fosse realmente excitante a perseguição, o stalking, da vítima”



Eis porque a prática de perseguição, seja quem for a vítima do ato, se homem, mulher, criança, idoso, ou quem quer que seja, ultrapassa o senso de razoabilidade e de respeito, consistindo, em sua essência, em ato ilícito que atinge o ser humano naquilo que lhe é mais caro, que é a tranquilidade e a paz de espírito, direitos inalienáveis imanentes à personalidade.


Em países estrangeiros, cite-se, por exemplo a Itália, stalkear alguém já é considerado crime há algum tempo, conforme se constata no julgamento da Corte de Cassação da Itália, na Cass. n. 46510/2014, Relator CAPUTO ANGELO, ocasião em que aquela corte firmou entendimento acerca da prova nos casos de stalking, trecho que, em respeito ao art. 192 do CPC, transcreve-se em tradução livre:


sobre a questão de atos persecutórios, a evidência do evento criminal em referência à causa na pessoa ofendida de um estado grave e persistente de ansiedade ou medo deve ser ancorada em elementos sintomáticos desse distúrbio psicológico que pode ser obtido das declarações da mesma vítima do crime, do seu comportamento resultante da conduta estabelecida pelo agente e também pelo segundo, considerando tanto a sua adequação abstrata para causar o evento, como o seu perfil concreto em referência às condições reais de lugar e tempo em que foi consumada.


O hábito de ‘cuidar da vida’ da vítima, se importar excessivamente com tudo o que ela faz ou deixa de fazer, possui potencial lesivo, podendo ultrapassar os limites da mera observação, escancarando portas para atos de violência, e por isso a promulgação da Lei nº 14.132/2021 é celebrada pelo ordenamento jurídico, pois tende a reprimir a prática de intrusão relacional obsessiva – IRO, e que atrai repercussões nefastas na vida pessoal do objeto da vítima de perseguição.


Karina Pimenta Jorge

Maykon Cristiano Jorge


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